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Mata Escura

Notas metodológicas (amostra, quantidades utilizadas)

O estudo tem como objetivo elaborar um diagnóstico e um prognóstico multidimensional sobre o bairro da Mata Escura, em Salvador (BA), a partir de uma pesquisa aplicada. A investigação abrange aspectos históricos, sociais, econômicos, ambientais, culturais e urbanísticos, além de propor diretrizes para o planejamento local e uma matriz de intervenção.

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A equipe adotou metodologias diversas, com orientação dos professores do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional e Urbano (PPDRU), e realizou revisão bibliográfica, visitas técnicas e entrevistas com autoridades e lideranças locais. Foram visitadas instituições como a Prefeitura-Bairro do Cabula, a Associação das Comunidades Paroquiais de Mata Escura e Calabetão (ACOPAMEC) e o Terreiro Bate Folha, importante patrimônio cultural local. Também foram feitas entrevistas no Complexo Penitenciário da Mata Escura e na 48ª Companhia Independente de Polícia Militar (CIPM), visando compreender a segurança pública.

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Na análise socioeconômica e espacial, aplicaram-se técnicas estatísticas e de geoprocessamento, considerando uma delimitação territorial ajustada aos setores censitários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O trabalho combinou pesquisa teórica, empírica e interdisciplinar, resultando em uma compreensão ampla e crítica sobre o bairro e seus desafios de desenvolvimento.

 

Antes da apresentação dos resultados, foram discutidos autores fundamentais que subsidiam a análise do território e suas dinâmicas sociais, entre eles, Émile Durkheim, Michel Foucault, e Georg Simmel. Essas abordagens permitem compreender as expressões da criminalidade, as formas de sociabilidade e o papel da cultura e da religião na constituição identitária do bairro.

Delimitação espacial (mapa de localização do bairro, limites, extensão)

Mapa 1 – Poligonal da Mata Escura com seus 35 setores censitários identificados pelos seus respectivos números 

Fonte: Siqueira (2016).

Contexto histórico

A história do bairro da Mata Escura é complexa e se conecta diretamente com a de Salvador. Desde sua formação por decreto, a capital baiana passou por um crescimento demográfico acelerado, especialmente a partir da década de 1970 (Caldas, 2007; Spínola, 2015). A cidade é marcada por desigualdades sociais e um padrão de pobreza que confina a população de baixa renda em áreas periféricas e carentes de infraestrutura, como o miolo urbano onde a Mata Escura está localizada (Soares, 2009). 

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A formação do bairro teve quatro eixos principais: o fornecimento de água para a cidade pelas represas do Prata e da Mata Escura, a origem quilombola que levou à fundação do Terreiro Bate Folha, a criação de loteamentos para operários e a construção do Complexo Penitenciário Lemos de Brito, em 1974, que atraiu famílias de presos e resultou em moradias irregulares no entorno (Lins, 1997; Caldas, 2007; Caldas e Santos, 2011).

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A Associação das Comunidades Paroquiais de Mata Escura e Calabetão (ACOPAMEC), fundada em 1994, também se tornou uma instituição importante para a comunidade, oferecendo apoio a jovens e famílias em situação de vulnerabilidade (ACOPAMEC, 2015). 

Aspectos ambientais

A cidade de Salvador está localizada em uma pequena península em forma de triângulo, que separa o Oceano Atlântico da Baía de Todos os Santos. Com uma área de 693,276 km², a cidade foi um dos principais portos de exportação do Brasil (Spinola, 2015). Seu relevo é acidentado, com vales profundos e uma escarpa que a divide em Cidade Baixa e Cidade Alta.

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A Cidade Alta, que é 85 metros mais alta que a Baixa, tem uma conexão histórica com ela através de "ladeiras" e elevadores, como o Elevador Lacerda, o primeiro do Brasil e o mais alto do mundo em sua inauguração (Sampaio, 2005; Spinola, 2015). O clima da cidade é quente e úmido, com ventos predominantemente de sudeste e nordeste, e é abastecida de água pelas barragens de Pedra do Cavalo e pelos rios Joanes e Ipitanga (Caldas, 2007; Spinola, 2015). A precipitação média anual é de 2.144 mm, e as temperaturas variam entre 17°C no inverno e 30°C no verão (Spinola, 2015).

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O bairro da Mata Escura possui um relevo acidentado, com vales e elevações que variam de 25 a 80 metros. Essa topografia, combinada com solos argilosos e a ocupação indevida das encostas, cria áreas de risco para deslizamentos, especialmente em períodos de chuva (Caldas, 2007).

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Até 1987, as represas do Prata e da Mata Escura, que fazem parte da Bacia do Camurugipe, eram importantes mananciais de água para Salvador. No entanto, o fluxo foi interrompido devido à baixa vazão e à poluição (Caldas e Santos, 2011). O crescimento desordenado e as invasões no entorno dessas áreas têm causado desmatamento e poluição por resíduos. A cobertura vegetal remanescente no bairro, que representa 25% de sua área total, é caracterizada por Mata Atlântica e inclui árvores de grande porte. A pesquisa aponta que 74% da área do bairro é ocupada por edificações e 1% permanece como área vazia (Caldas e Santos, 2011). Além da área de 14 hectares do Terreiro Bate-Folha, que é tombada pelo IPHAN, o bairro ainda possui 24 hectares remanescentes de Mata Atlântica, onde estão instalados núcleos do Ministério da Agricultura (MAPA) e do IBAMA, além da represa do Prata (Caldas e Santos, 2011).

Aspectos sociodemográficos
Aspectos econômicos (turismo, comércio e serviços, condições de centralidade, etc.)

No bairro da Mata Escura, a economia local se concentra nos setores de serviços, com destaque para a informalidade. A análise, baseada em observações e entrevistas com líderes de complexos penitenciários, do Terreiro Bate Folha e da ACOPAMEC, indica que as atividades produtivas são uma resposta dos moradores em busca de subsistência.

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Embora o comércio formal exista, com pequenos mercados, oficinas mecânicas, escolas particulares e clínicas de saúde localizadas principalmente na Av. Cardeal Avelar Brandão Villela e na Rua Direta da Mata Escura, a informalidade é uma característica marcante da paisagem econômica do bairro.

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Os complexos prisionais têm um papel significativo nessa dinâmica. Nos horários de visita, um intenso fluxo de pessoas na entrada dos presídios cria um ambiente propício para o comércio informal de lanches, serviços de guarda-volumes, aluguel de roupas e até aluguel de moradias. Além disso, as penitenciárias também servem como fonte de mão de obra barata para atividades industriais rudimentares na região, onde os apenados recebem apenas 75% do salário-mínimo, sem direitos trabalhistas como férias, 13º salário e FGTS. 

Espaços de representatividade (ongs, associações, representações diversas...)

A organização comunitária da Mata Escura é estruturada em torno de cinco pilares principais: Associação das Comunidades Paroquiais de Mata Escura e Calabetão (Acopamec), Fórum de Desenvolvimento Social da Mata Escura, Fórum de Erradicação do Trabalho Infantil, Terreiro Bate Folhas e Pastor Eli. Elas atuam conjuntamente em prol de melhorias sociais, econômicas e culturais no bairro.

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A Acopamec, ligada à Igreja Católica, destaca-se por mais de 25 anos de atuação contínua na formação cidadã, oferecendo ações de educação, assistência social e economia solidária. Seu trabalho é articulador, servindo de base para os fóruns comunitários e promovendo uma convivência inter-religiosa exemplar, na qual colaboram lideranças de diferentes credos, como o Terreiro Bate Folhas e o pastor Eli, reconhecido por suas ações de prevenção e combate às drogas.

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Os fóruns locais, especialmente o Fórum de Desenvolvimento Social, têm participação efetiva da Polícia Militar e priorizam o diálogo e o trabalho conjunto com a comunidade, reforçando o caráter cooperativo da mobilização. Uma das principais bandeiras do movimento é a criação de um Parque no Horto da Represa do Prata, iniciativa que depende da articulação entre o poder público e a comunidade.

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Apesar da forte organização local, a efetividade das políticas públicas ainda exige maior comprometimento institucional da Prefeitura e dos órgãos públicos, com presença constante e ações voltadas às demandas reais do bairro. A ausência do Estado, longe de enfraquecer o território, fortalece suas organizações comunitárias, que assumem papel essencial na promoção da cidadania e na construção de centralidades próprias, independentes da lógica externa e política tradicional. 

Mobilidade urbana (sistema viário, linhas de ônibus, caminhabilidade etc.)

No bairro da Mata Escura, a mobilidade concentra-se em duas vias principais: a Avenida Cardeal Avelar Brandão Villela, que conecta o bairro à estação de metrô Pirajá e abriga a maioria das linhas de ônibus, e a Rua Direta da Mata Escura, considerada o centro pelos moradores locais.

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Essas vias concentram o transporte, o comércio e as atividades comunitárias, configurando dois “lugares centrais”, conforme o conceito de Christaller (1966 apud Silva, 2012), que define tais locais como polos de serviços e fluxos econômicos. A Avenida Avelar Brandão Villela atende mais aos transeuntes e atividades externas, enquanto a Rua Direta mantém o comércio e os serviços voltados aos moradores. Essa estrutura reforça a monocentralidade do bairro, que prioriza o atendimento das demandas locais e a conexão com outros centros urbanos da cidade.

Infraestrutura social (educação, saúde, segurança púbica, esporte, lazer e habitação)

Educação 
Em 2010, a Mata Escura apresentava taxa de analfabetismo de 7,5%, com destaque negativo para crianças de 5 a 9 anos: 28% da faixa era analfabeta, respondendo por 2,03 p.p. da taxa total. Também havia elevada incidência entre a população carcerária, com 25,5% de analfabetos. A correlação entre renda média e analfabetismo por setor censitário foi forte, e as maiores taxas concentraram-se nos setores vinculados ao complexo penitenciário e nos que abrigam familiares de detentos (IBGE, 2010). 

 

Segurança pública 

Entrevistas e visita técnica ao Complexo Penitenciário Lemos de Brito e à 48ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM) indicam uma “microcidade” penitenciária que influencia fluxos, poderes e dinâmica criminal do bairro. O complexo, historicamente polo de ocupação desordenada, relaciona-se a tráfico de drogas, facções e comércio informal nos dias de visita; líderes presos mantêm vínculos com o narcotráfico externo. Dados operacionais apontam queda dos homicídios em 2015 (-22% vs. 2014) e nova redução em 2016 (-23% vs. 2015), oscilação nas tentativas de homicídio (alta em 2015; leve queda em 2016), recuo dos roubos a coletivos em 2016 e aumento expressivo de furtos/roubos de veículos em 2016 (48ª CIPM/Sussuarana, 2016). 

 

Habitação 
Entre 2000 e 2010, os domicílios particulares cresceram 56% (de 6.274 para 9.789), acima do aumento populacional (37,5%), reduzindo o tamanho médio das famílias de 3,75 para 3,07 moradores. Em 2010, 85,4% dos lares tinham até quatro moradores. As moradias eram majoritariamente casas (72,7%), seguidas por apartamentos (25,3%); o adensamento de apartamentos/condomínios concentrou-se em setores próximos à Av. Dom Avelar Brandão Villela (setores 3, 4, 5, 6, 7, 8, 380 e 91) e explicou 72% do incremento de domicílios na década. Houve forte associação espacial entre esses tipos de moradia e maior renda, além de concentração de imóveis próprios ainda não quitados nessas áreas; no total do bairro, 83,5% dos domicílios eram próprios, 14% alugados e 2,2% cedidos em 2010 (IBGE, 2010). 

Patrimônio histórico cultural

No plano simbólico, a identidade local é fortemente ancorada na matriz africana e no sincretismo religioso, entendido como mediação entre fluxos globalizantes e particularismos identitários (Spinola, 2007). Entre as instituições referenciais destacam-se a ACOPAMEC, a Casa de Oxumaré e, sobretudo, o Terreiro Bate Folhas, reconhecido como patrimônio cultural nacional pelo IPHAN em 8/10/2003, um dos poucos terreiros com esse status no país, cujo tombamento expressa proteção, reconhecimento do legado imaterial e reparação histórica (IPHAN, 2003).

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Fundado em 1916 por Manoel Bernardino da Paixão, o Bate Folhas (Manso Bandukenké, linhagem Kongo-Angola) conserva cerca de 15 hectares de Mata Atlântica, abriga casas de culto e barracão, e possui forte enraizamento comunitário. Sua comunidade, com cerca de 80 integrantes, mantém festas e ações socioculturais, financia-se por doações e enfrenta desafios como taxas e serviços públicos onerosos, além do acúmulo de lixo no entorno.  

Ao valor religioso somam-se funções sociais: acolhimento, fortalecimento identitário e preservação ambiental em um território estigmatizado por violência e desigualdades, onde o candomblé segue ganhando visibilidade enquanto combate o preconceito e negocia tensões entre tradição, sincretismo e vida urbana (Spinola, 2007; IPHAN, 2003). 

Percepção dos moradores (informação derivada da pesquisa de campo)

Não há, no arquivo disponibilizado, essa seção.

Referências

ACOPAMEC. Publicação da Associação das Comunidades Paroquiais de Mata Escura e Calabetão, 2015. 

 

CALDAS, A. S. NUNES, E. J. F., SANTOS, W. Odu, Egbé Dúdú: caminhos da Mata Escura. Salvador: UNIFACS, 2007.  

 

CALDAS, A. S., SANTOS, L. G. S. Mata Escura: heranças e permanências como possibilidades para o desenvolvimento local. Salvador: UNIFACS, 2011. 

 

IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – Cidades. Rio de Janeiro: IBGE, 2010.  

 

IBGE. Arranjos Populacionais e Concentrações Urbanas do Brasil, 2015, RIO DE JANEIRO. 

 

IBGE. Censo Demográfico de 2000. Rio de Janeiro, 2000.  

 

IPHAN. Ata da 39ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural. 2003. Disponível em http://portal.iphan.gov.br/uploads/atas/2003__01__39a_reunio_ordinria__14_de_agosto.pdf 

 

SAMPAIO, Consuelo Novais. 50 anos de urbanização: Salvador da Bahia no Século XIX. Rio de Janeiro: Versal, 2005. 

 

SOARES, Antônio Mateus de C. Cidade Revelada: pobreza urbana em Salvador-BA. Geografias Artigos Científicos. Belo Horizonte, 83-96, janeiro-junho de 2009. 

 

SPINOLA, Noélio D. A Cidade do Salvador e sua Centralidade. 55th ERSA Congress, 25- 28 ago. 2015, Lisbon, Portugal. 

 

SPINOLA, Noélio D. Economia Cultural e Desenvolvimento Endógeno. XII Encontro Nacional de Pós-Graduação e Planejamento Urbano e Regional. Pará: ANPUR, 2007. 

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